segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Memória decantada feminina

Tive certeza ....te desnudaria num café da manhã.
A gente percebeu que queria mais tempo pra se ver....daí o trem
disparou, você nem conseguiu acenar direito. Eu fiquei na estação até
o barulho sumir das minhas impressões. Depois fui
embora,acordei de tudo,acordei de novo,dormi, trabalhei,escrevi,fiz
compras,li, fumei,raspei a cabeça... E o barulho/impressão do trem ficou cada vez mais real.
Eu acho que eu gostava dessa menina,eu queria sabê-la, por muito
mais tempo ainda.
Voltei numa praça que me fazia lembrar do trem indo, feia
a praça, desejei que ela ,a que pretendia desaparecer,transcendesse
e viesse me visitar pra dizer que o trem era dentro da gente,era a
gente, se apresentando dessa vez, nessa vida ... e pra sempre.
Podia ser amizade,sexo, cinema,vinhos , mas que fosse pra sempre.

Daí, farejadora de gente que sou, dessas de gostar de gostar.
Me mantenho gostando do poder de gostar ainda mais.
Ela?
Dizia ter medo, mas acho que tava dando nome errado pro que sentia, uma ousadia , nem precisou se apresentar, o cheiro vinha da nuca, só cheirei de longe...
Perfume de quem gosta de ser olhada, de ser vista!
Me viu e soube, que eu também era assim, mas deu esse
nome,fazer o quê?!
É bobagem ter medo de quem quer ver só o que você quer mostrar,não existia roteiro pra você,você era um delírio,era só surgir que eu te escreveria...
Medo?
Vista uma calça jeans apertada no medo, e depois tire-a pra ver o alívio que dá.
-Que mistério há no fato de você com seu rabo ...de cavalo, ter vontade de me ver nua?
As mulheres gostam da nudez,você ainda não é lésbica por isso.Você é linda, mas me diga uma outra palavra além de medo.
Ela se recusou, sorriu e me deu as costas... a sua bunda ,redonda ,se despediu.
Não pude evitá-la...
Ah se todos os dias bundas ou pessoas lindas me invadissem ...
Lembro tanto dela ,ficaria tão contente de notícias delas ter... e se a saudade for mesmo felicidade abafada?
Os meses são gotinhas tolas, a gente nem percebe, padecem no calendário.
O motivo pra te procurar talvez seja uma garoa, a saudade das bundas de pessoas lindas, certamente é um sólo árido.
Talvez você seja só um incômodo. Procuro me distrair, mais fácil um ano novo entrar em mim e atravessar meus deveres, enrugar meus banhos demorados, evaporar meu tesão espalhado do que a gente se encontrar por acaso.
Quem se importa, não é mesmo?
Coincidências, delírios, balas de iogurte, pele com frio,unhas roídas, saudade,futuro, quase tudo é a mesma coisa....
Sempre que entro numa livraria procuro um rabo de cavalo castanho ,na estante que procuro "O Caderno Rosa de Lory Lamby"(hilda hilst)e não encontro.
Não sei porque, mas não sei se ela existe...ou se ainda.
Talvez hoje ela seja uma recatada senhorita que desacasca batatas, pra fazer purê ou souteé. E quando seu digno marido, que agora tem barba, chega, ela está de avental, só de calcinha.
Ele sorri, agradecendo todos os dias a sobremesa que tem antes de todas as refeições que faz. Ela o olha e diz:

-Faminto?
-Encantado...
-Ainda falta triturar o alho
-Tire a calcinha ?!
-Ainda falta o alho...

E se vira, usa uma presilha douradinha, que parece um broche, seus olhos estão luminosos, mas são tristes.
Uma tristeza linda e um corpo tão maldoso,tão perturbador...

-Eu não sei se pretendo continuar a te alimentar.
-não entendi!
-Quero ir embora daqui!

Os dias seguem até três,e ela se conforma com o tédio, por um instante achou que amasse outro alguém sem barba.
Que nada ,ela só estava de tpm e o seu revolvente-ciclo-saturniano de 28 dias quase a transformou num delírio.

Beatriz Rodder

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Fragmento lírico acerca dum encontro-desencontro

Desligou o chuveiro
(girou primeiro a válvula fria, deixou cair mais tempo a água quente,afligindo-lhe os olhos até fechar completamente as duas águas)
O silêncio da dúvida foi mais agradável que a agitação das palavras "calouras" .....de brilho eterno, iniciadas em tempo de agoras.

O vapor do banheiro azul, o vestidinho azul no cabide reserva, os sons fora do banheiro.
Teria sido guardado o vestido nas malas, e a minha sensação fora só uma lembrança?
Não!
Foi-se....com mazelas e fúria a construção do encontro.
Sobreviveria a rachaduras úmidas , de constante movimento de águas?
(Flutuantes , solitárias .... em gigantesca forma sem divisão.....gigantescas.)

A construção se dividiria em pequenas constelações de harmonia e outras ilhas de disfarces cômodos do EU.

Não!
nada sobrevive no deslocamento, o sentido não é permanência, é puramente intencional viver em placas flutuantes de segurança.

Secou o corpo, limpou a maquiagem
(menos do que o faria se fosse dormir só).
A maquiagem pode ser intencional quando se está nu.É possível que a nudez emocional seja o maior incômodo maquiado ja visto.
Abriu a porta do banheiro...O vestidinho azul ainda estava no armário (ou nunca esteve).

Estranho pensar numa pessoalidade (compartilhada).... sem saber se ela vai estar no mesmo lugar que foi vista quando a última vez....

Dormiu
sonhou lâmpadas verdes
sonambulou curas de amor inflamado
pensou estar respirando poeira
ao dormir ao lado da água.
(Ela sempre olhava ao lado da cama, pra ver se o copo d'água estaria assegurando seu mimo de criado-mudo )

A água do mar dormia, nem parecia fúria quando se espalhava serena pela noite demorada...
Quase sempre a ilha flutuava no sono da água enquanto ela dormia...Seu sono era ágil, durava menos tempo que o sono da ilha.
Quase sempre acordava cedo a água...farfalhava nos coqueiros (como quem rasga papeizinhos de supermercado e os amassa em seguida)...era logo ao acordar, pra justamente acordar a ilha (dorminhoca e de prazeres terrenos ,habitos de lua cheia) junto dela..
A ilha havia criado pela água uma profunda relação de afeto e fusão.As duas se alteravam e se resultavam o tempo todo, as duas se olhavam independente de ser dia ou noite.
A ilha, com sua camada debaixo virada pra água ,vivia completamente molhada na parte de baixo...(E os olhos estavam sempre molhados ).....de areia molhada da ilha.
Talvez tenha sido por isso que a água não enxergou direito a ilha.
Muita areia nos olhos, muita saudade das terras planas, muito vento nas entranhas da ilha, ela apenas dormia...
A água, mais antiga que a ilha, resolveu parar de tentar acordá-la cedo.
Começou, ao contrario, participar das noites de lua ardente da ilha.
(A ilha era estranha, vivia irritada, mesmo quando estava calma!)

Suas superfícies estavam sempre cheias d'água...
Vai ver por isso a ilha se afastou dos olhos da água.
Estava se sentindo vista apenas numa das faces, a face que ficava dentro da água.
(A ilha sabia que não sobreviveria tanto tempo mais....aos revolvimentos e caldos que a água lhe causava em sua metade doada)

O mar sorria sem saber que a ilha , dele iria embora de vez.
Algumas camadas da ilha desmanchavam-se quando a água se agitava
(elas não se controlavam mais)

Acordou...
Chorando, com medo do desencontro,medo do tamanho do encontro, medo de ter sido engano.
Pegou o telefone e pediu socorro.
(ela estava ridícula, inchada de palavras-espirros contra o destino)
Mas naquele telefonema, em particular, o destino se irritou.
Se irritou porque as noites amanhecidas pareciam sempre vésperas de "dias-acontecimentos-graves"!

Ainda mais aquela noite...especialmente alegre... havia alguma coisa disfarçada pelo traiçoeiro destino eterno

O amanhã seria o "dia do infinito", mas o destino não era tão bem -vindo ali.
As regras se infiltraram no destino .Até que o passado moreno fez-se presente num dia de sol, mesmo diante das regras, aliás ,além das regras ....e passou por cima delas sem cisma.
As juras, os espelhos e as palavras resolveram reunir-se.
Fizeram a reflexão sobre o tempo delas, suas certezas , carências, carinhos....
A jura, era a mais desolada dos três, ja não conseguiria se restaurar após tantos "desdizeres".Só conseguia pensar que não merecia a forca com prazo irrevogável.
Os espelhos estavam sobrecarregados ,bombardeados por reflexos e sombras distorcidas , todas ao mesmo tempo.Eles(os espelhos) clamavam por um ângulo mais iluminado de reflexos, um ângulo em que a luz fosse de projeção inteira e nítida.
As palavras....ah.... as palavras....elas estavam completamente em estado de choque, não acreditavam em mais nada do que diziam, diziam quinas,diziam ruas sem saída, diziam cofres sem segredo, diziam arco-iris , falácias , sofismas...
Precisavam fazer silêncio

Ela sabia do risco...
Desligou o telefone
em seguida a tempestade.

B.R.R

terça-feira, 30 de junho de 2009

Quatro lados de uma mesa de mármore, muitas vozes. (a menina do lado vai ao cinema). Minha cabeça latejando, (talvez seja o ácido do aceto). Um mundo todo percorrendo em volta. Ela e dois grandes olhos (mais velhos que o resto do corpo, Manuel):
- Eu faria amor agora.
Ela convida:- Cinema ou teatro?
Só respondo pontas porque é assim que ela gosta de estar, talvez ela prefira as palavras com teor ácido, para temperar suas folhas novas de respostas outras.
(Nesse último quarto de hora, as vozes viraram uma só, um som mais uníssono e eu penso em salgar o café)
As minhas respostas são perguntas de amor.

O amor adentra, responde. Ela joga açúcar mesmo. No café, eu digo, que pensou em salgar. Ela transita nas certezas. Ela se move, cortante. É resoluta. Eu visto meu áries para vê-la. Por dentro, os maremotos insondáveis me questionam nos rodamoinhos.
Luas
e
não sóis.
Serias o que (ainda) sois.
Seus ombros formam dois olhos desnudos, sua beleza está de folga, de madeixas descansadas...
As nossas praças são mais ensolaradas que as habituais, acho que nossos áries incandescem a umidade das praças quando se enlaçam. Acho que adulteramos a temperatura das ruas de espaços barulhentos e resfriados.
Acho que gripamos as pessoas como nosso amor incandescente em tempos de frio no coração.

O dia inverna. Cai uma noite branda.
Eu também inverno por dentro. Tenho uns medos, amor, que não são nem de futuro nem de passado, são dos agoras. Me emudecem. Nuns olhares não te reconheço. Nuns falares e sei que ainda é de arredores que tratamos. E eu quero os fundos.
O cenário muda. É noite agora, clara como o dia tapado. É tua hora. Eu já penso em ir pra cama, as camas, as camadas de nós onde descascamos como cebola. Sei que em breve esse primeiro descascar há de fenecer. Sei que há mais. Quero descobrir-te para além do óxido da rotina. Pelos dentros. Pela alma.
“ As tílias cheiram bem nas boas noites de julho, o ar é às vezes tão doce que fechamos os olhos, a cidade não está longe... o vento é testemunha. Há perfumes de vinhedo e perfumes de cereja...”
O dia faz-se inteiro, feito mãos prontas para começar a girar na ciranda...
A estação do amor que fica, feito o círculo de medos que giram até virar certezas de roda-gigante.
Gigante suas tiras de renda que me convidam pro altar, quase me enforco com seus laços enfeitados de decência e libido, de casar!
Agora tem prazo, nosso altar está fadado.
As camas vão ter que casar, os lenços terão o mesmo cheiro, as meias vão todas se misturar em bolinhas de organização.
As xícaras terão nomes, as toalhas bordados, os pijamas não terão donos oficiais.
É hora, de saber mais sobre isso, já que é agosto do destino.


I love you too!


AR and BRR em 30/06/2009

sábado, 27 de junho de 2009

Frio e segundo poema para quando estou sem A.R

As descidas
o vento úmido
a margem das calçadas
o apego das pessoas
e o noturno olhar de quem passa...

O abismo dessa impressão
congelou meu passeio

Sem tua mão quentinha
a passear do lado
tudo parece risco...medo...atentado...
é tão sem alegria e sem AR

As minhas mãos magras
e geladas
de tão pequenas
tremem a cada nova "pessoa-contra-mão"
e a cada calçada vomitada
os restos realçam a feiura do seu não-estar
aperto contra a palma seca
minhas unhas "renda"

Os meus olhos ficam lembrando
do canto dos teus
e agora
as mãos solitárias
gostariam de entrelaçar-se
em suas mãos de unhas "carmin"
até chegar em casa ...

As bacias
"escalda-escamas"
estariam já cochilando ao lado de
Benjamin com notas de baunilha e pimenta

Ali então
nossos cílios de azul-roxo
fariam pausas mais lentas entre olhar e cochilar...

Os travesseiros frios
ocupados pela leveza do sagrado sono de amor
amassariam-se ....esquentariam

Até que finalmente
nossas nadadeiras cansadas de(a)mar
colariam uma noutra ...
seu "cassis" no meu "gabrielle"

E rezariam risonhas
nossas guelras
num som de frio ...
"BRR" num ato de busca pelo "AR"
no calor do sono quente .

Ah como me dói "infinitos inteiros"
estar na companhia da tua ausência...

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Poema para quando estou sem AR

Dou-te
Sim
as partes adubadas do meu jardim aberto,
Abro-te também alguns botões pra que vc entre e queira ficar.

E no espaço que escolher semear,encravarei uma placa,
separando vc das outras sementes (para que não hajam mutações botânicas)


Dou-te ventanias perfumadas, de secar os olhos,
e mais alguns raminhos de amor ao acordar
queres?

(se ainda não estiver Primavera, peça pro Outono deixar ser...)

Ou então guarde mudas pra depois de agora
e na hora de ser
escolha bem o lugar e memorize-o muda
para não esquecer os cheiros depois do sono

É necessário acordar com a memória dos cheiros,
mesmo que isso inclua
olhar a muda todos os dias
ao acordar

E que acordar seja a dose diária
de disitribuição de todos os eus
ainda nåo esmiuçados pelos dias todos

Pois sim,
dou-te os dias
(com entrecortes de noites)
dou-te as noites matinais
de céu lilás tremores e júbilo,
sim.


B.R.R

quarta-feira, 1 de abril de 2009

no véu das olheiras

Quando a miséria do mundo fala sozinha
olha-me os olhos como se fosse comigo
como se eu fosse o motivo

Devo estar alterada pela miséria do mundo
Devo estar contaminada
como se fosse comigo

Revelações praguejadas
pregando pra nada
ninguém vendo a prece
a prece dita em vão

pregos furando a fé
passos contados a pé
delírio e fé

Murros dados
facas pontudas
Facas suspensas do céu
ruas abrindo
nos pés
Roupas questionando
a rotina de nós

Nós dados sem soluções
palavras pregando por si
Habitando
espaço de nada significar
para não existir.

A miséria do mundo me beija nos olhos
como se fosse vento
secando meu choro
e serena
a virar
lentamente minhas páginas

Vagas de solidão a venda
vagas a bagatelas

Aluga-se para não estar

Pessoas e suas heranças
passos iguais
sem mudança

o mal a invadir os olhos

A miséria da alma
vem do quarto vizinho
que está quase completamente habitado

Mas a vizinhança é o lado de fora
as olheiras dos outros
não são nossas noites sem sono

Os nós são o lado de dentro
As prisões são celas abertas
com vagas de solidão amostra

E a miséria do mundo é a semente da solidão.

domingo, 1 de março de 2009

Fevereiro oficial

Aval da carne
dos sapatos enlamaçados

Festa das lantejoulas esquecidas
salvação dos trajes guardados

Carnaval
de ruas aquecidas por vontades
bebidas nos goles à solta
nas bocas os botes

Carnaval
nas poças lotadas
de reflexos

Unhas,pós,recados dados ,rasgados
restos de serpentina
viva a "vida-menina"

Festa de
barulho prensado
inundando a poça de bagunça
Festa sem centro
festim de carne

Cor de carne o cerne do carnaval
cor de aval
de coisa toda
cor total

Fase reincidente
apitos joviais
novidade repetida

É Carnaval

Sim , depois disso vem cinzas
feriados finados
sapatos normais
vestidos nublados
memórias e tal....

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

a procura interessada por apreço

pareceu ser
mas me engano sempre

parece ser engano de novo

mas o parecer é grátis

o sempre é que é caro

parece sempre sair caro se enganar

pareceu sim
um engano assumido

o teste de parentêsco deu negativo
mas não pareço padecer
fico chorosa de amor,
de amar o que inexiste
apaixonada até Dezembro próximo, apaixonada pelo que não foi....


Meninas saem da naturalidade ,esticam a expressão do sorriso,erguem a sobrancelha num ar de superioridade, mordem a boca e achando sensual fazem cara de inabaláveis....diante dum louro esguio de barba aparentemente descuidada.
Os pés viram de lado como se fossem uma canoa mal-feita , alternam-se entre isso e saltinhos de ansiedade, pulinhos com o calcanhar.
Os pés mostram o nervosismo e o incômodo em existir a possibilidade ,de ser menos interessante que o macho louro-alfa,cheio de si...Um tantinho interessado nela, só que ainda menos que o demonstra...

moça em frente a livraria acaba de avistar moço chegando de blazer marron-claro-veludinho na altura do punho....(aparência esteticamente correta).....vindo ao encontro da mesma.Faz-se desentendida pra dar a sensação de que ele a viu antes dela, e assim começar a certeira versão do primeiro encontro, induzido e ineficaz!

Isso torna a interessada presa do interessante, porque assim que ele chega, ela deixa cair seu livro novo na poça suja.E antes de beijá-lo no rosto, se abaixa virando pra ele seu traseiro inocente e distraído , pra pegar a sacolinha ...Ele tem intenções ,mas não tem afeto, ela ta nervosa, mas não admite.
Pega a sacola e volta para o campo de visão do macho...que fuma tranquilamente e até observa as mulheres da mesma calçada , da mesma rua, menos nervosas ,e que não o temem, feito a fêmea a sua frente de sapatilhas bobas.A cumprimenta com tranquilidade e a olha nos olhos ,sem parecer interessado, mas com garantia de a estar interessando.
Ele se posiciona sem dificuldade ao lado dela,ela parece estar desesperada por um sorriso.Ainda sem posição boa para iniciar o diálogo, toma desajeitadamente o cigarro dos dedos delicados do macho, louro e alto,e quase se queimando ao tragar o filtro do jeito que veio, tenta começar um diálogo bem humorado...Faz caras e sobrancelhas enquanto ele conta os andares dum edifíco da grande São Paulo ,ensimesmado e gentil.
Os pés começam, frenéticos a se torcer de lado,enquanto ele, no máximo, posiciona seu quadril para o lado oposto de apoio da perna.
O macho termina de contar os andares ,e resolve olhar docemente pra moça, colocando agora suas mãos magras, sobre os ombros coloridos do vestido dela e decide andar.
Em seus bolsos tem cartão de crédito ,cigarros e camisinha.
Ela ,que tentou dias e dias parecer desinteressada nele, carregava necessaire,sorte do dia,ipod,balas de cidreira,perfume,carteira e sacola suja de barro com o "livro sobre o nada" de Manoel de Barros ,e disco do "Cartola" para dar de presente ao melhor amigo ....sem perceber só fez o que os olhos dele mandaram ,e ainda assim teve medo de não ser interessante, ou melhor,interessante o suficiente para receber uma declaração de apreço.

quem acena?

A cena....
-quem, a cena?
-é!

Fim de ano....fim das porcarias do ano....
Feito um intestino de datas corridas, come-se datas o ano inteiro,aí qdo chega o fim a explosão é mais uma data!
Que preguiça das datas coloridas, quem foi que inventou essa barulheira com hora marcada?

As pessoas saem do trabalho , de casa, com uma alegria de entristecer, parece que são convidadas a gozar de outra esfera universal,nessa justa data feliz.

Data apertada, parece dor de barriga....só faltam aqueles seis ou sete dias,pequenos excrementinhos.... como se fosse uma prisão de ventre a última semana do ano.
A gente engole bolas e bolas de horas comprimidas, e depois bebe toda a falsidade no dia escolhido e jura que foi melhor que o ano anterior.
Pra mim os derradeiros dias do ano são como uma vontade insuportável de usar o banheiro de casa, quando se está fora de casa...
Vai chegando perto.... a agulhada vai aumentando mais e mais....você procura a chave da porta da sala, mas só encontra a da cozinha, entra pela cozinha mesmo.
Como tomar proseco no lugar de champagne!
Seu telefone toca no momento em que vc está fechando a geladeira (q tava aberta não se sabe desde que horas), isso pq ta no fundo da bolsa-sacola o celular, e vc apertada pra abrir as calças tem que atender o telefone e ouvir:
-Feliz natal querida...como estão as coisas, ta trabalhando muito?
-Obrigada...feliz pra vc também...trabalhando, sim , sempre...e os seus filhos, vão passar aí no sítio ,dona Ernestina?

Sabe aquelas pessoas que nunca ligam e ligam ,só pq estão na frente do telefone ,prontas pra fazer o seu dia mais feliz?

Pois é...é como decidir se vai jantar em casa ou jantar de branco...

-Dona Ernestina, manda um beijo pro Marquinhos ,pra Fernanda, e fica bem aí, se cuida, da uma diminuída no cigarro ja que vem aí o ano novo né....
-Sim, minha filha, deixa beijos no seu marido, e convida ele pra conhecer o sítio.

O pior de tudo é que uma pessoa q vc herdou da sua família, nem sequer sabe q vc é de sexualidade duvidosa...e afirma sem receio q o seu par é um marido!
Saindo do telefonema lento a minha testa ja tava suada e minha dor de barriga suspensa...
Ja reparou q qdo a gente ta esganado pra usar o banheiro é mais gostoso do que criar um momento pra sentar lá?
A droga do celular me travou de vez...e agora...o que serão das minhas datas do ano inteiro presas no intestino preso...
Não gosto de natal, que fazer faltando tão pouco pra acabar o ano cheio de "quases"?
Tempo de comparar o tempo anterior, de reparar a caminhada, mas isso pode ser feito em solidão...em comidas leves.
E não em comprar, lembrar de comprar, se afogar pra comprar um sabonetinho de luxo pro seu amigo do peito!

Por que é tão normal ficar extravagante no Natal?
Por que as vontades se confundem e pessoas imbecis te saudam na rua?

Queria entender o que acontece com os desejos desse mês


Bom, eu não estou extravagante....Só um pouquinho mais atenta, desejosa, pode ser....
Eu acho o fim de ano uma lotação!
Digerir o ano no intestino grosso em explosões de alívio , que no fundo são implosões de limpeza disfarçadas de alegria por ter terminado....

Quem acena?
A cena!

-Quem é o bobo do semáforo que nem me conhece e quer presentes?
-É um bobo qualquer...nem olhe
-vai ver é meu espelho o que a cena de longe traduz em aceno ....
-ele acena?
-ele é a cena, o tempo inteiro cena...que preguiça de olhar
-vire-se então...o que ele ta pedindo?
-nada, mas quer atenção só pq é Natal!

Quem?
A cena!

sábado, 20 de dezembro de 2008

A noite da beliche tomada

Era um rosto o tempo do pêndulo, era o sono vindo e indo o pêndulo, sempre terminando em "ir".
O estrado da cama de cima ja me cansava a contagem,somava sempre ímpar, os vãos também , sempre ímpares.
O rosto do pêndulo era a mentira da noite,a mentira de ninar.E se algum choque de chuveiro resolvesse me explicar a razão daquele rosto árabe ,eu seguraria o choque...até sorriria pra resistência malvadinha do chuveiro.

Após cinquenta contagens e um choque na cutícula desfiada ,o moleton começou a perturbar os recém-giletados pêlos, roçando meu corpo como estivesse no meio da palha.Fiquei de calcinha.

Variei o pensamento e lembrei de um banheiro ,de pastilhas quadradinhas em pastél,em que eu entrava no dia frio, após um fim de romance tórrido.
Não tinha papel higiênico, aliás ,naquele dia era o segundo banheiro em que o papel não havia frequentado.

No colo ja estava contado cerca de 13 folhas de secar mão,quadradas também.Também ...porque tudo estva quadrado desde a bendita noite da beliche tomada,inclusive a cólica do meu abdôme.
Se lembrei do banheiro , é claro que poderia lembrar de onde vinha aquele rosto de costeletas unidas às têmporas...Pois o rosto arrogante e sorriso atemporal não era construção,era projeto acabado, existente, era rosto de gente.
Era um resto de gripe que me constipava, em meio as bolinhas peludas de cobertor pra visitas.

O pêndulo insone não parava de convidar o árabe a deslizar suas mãos peludas,revestida por retos pêlos, em minhas ondulações mais macias.
A cada espirro, me retirava do sono em doses....fui me afastando de dormir...ja tinha terminado de contar as ripas do estrado,não havia mais nem vãos para contar, a soma deles finalmente dera par.
E a porra do Árabe não desistia de me molhar,comecei a admitir que queria dar pra ele.
Beatriz

domingo, 7 de dezembro de 2008

bahia bahia

O que te deu em mim?
Que anda me chamando pra te ver?
tanto que me alisa bem gentil e oferece até lugar de ir...
Ah Bahia se me soubesse tão sua não faria isso...

Me retira, me quer retificar...e eu não sei o que restar daqui.
é puro jogo baixo molestar-me assim ô Bahia...
por que é que não me olha nos olhos Bahia?
e só me acena de longe apaixonada...

Por que é que não me toma nos braços de uma só vez Bahia
e me leva pra seus quadrados dos tantos paralelepípedos de Pelourinho?
Ah eu sim
eu sim nasci pra receber Bahia...

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

o nome da beleza

-Prioridades....priorize Marília, sabe diferenciar entusiasmo de prioridade?

-Sim Beto , eu sei a diferença, mas eu me envolvi , acho é culpa da beleza...a gente fica pequena quando a coisa é mais bonita do que parecia antes de reparar.

Os homens sentem a beleza, nós mulheres tragamos o hiato entre o belo e a beleza....A gente esquece ao que se deve o elogio, fica maior , faz mais sentido sendo belo.
É um esfumaçado na visão, parece um cílio perdido na pálpebra o momento em que a beleza se repara .Incomodativa, não dá tempo de olhar inteiro, enorme reflexo perturbando , é agudo, não sossega enquanto a gente não se aproxima dele,do belo da beleza.
O belo não perde a oportunidade de furar os olhos, mesmo quando não quer entrar de vez.

-Marília, isso é atração, conhece esse comportamento humano, ja ouviu falar?
-É atração , mas é um pouco mais demorado que isso, não é uma vitrine Beto, é um parque arborizado sem linha de fuga,sabe?
São toalhas estendidas em gramado.Do alto pequenos quadrados,de perto, frutas cortadas , úmidas, ardentes, salivando em cima da toalha...chegar perto é sem volta.

A beleza é a criança do belo, ela pode até crescer sem implantes,histerias, babados ,sorvetes melados ou disfarces, e ser belo um dia.
Pode até se tornar, mas não é regra da beleza ser o belo.
O belo passa batido, a beleza não, a beleza é estática, invariável,insípida(mesmo em suas insinuações).
Até mesmo o bêbado distraído de cachaça reconhece a beleza.Ela ta ali.
Ver o belo é mais chato.
Parece que gente tem que estar fértil, limpinha, contente de si,feito aquelas campanhias que adoram receber visitas , o blim-blom viváz , como se fosse um despertar pro que vem de fora.
-Mas Marília, o belo ta dentro da gente, fora só tem a identificação...Reparou como eu janto naquele restaurante do começo da Angélica, ha tres anos e sempre acho tudo belíssimo?E você foi lá e disse que parece uma selva!
-Parece mesmo Beto, só que é um restaurante , não uma beleza sem nome, só um restaurante....
-Exatamente, eu vejo o belo ali também, você não, nem a beleza você vê...
Ai... eu acho o máximo almoçar com as paredes cheirando terra, ser recebido por um jardim comprido, tipo um corredor arborizado,cheiro bom, lugar lindo.
-Essa é boa Beto, quem dera eu gastar meu faro do belo num restaurante.Coisa de veado.Vai ver que vc é um jardim cheio de begônias úmidas e paredes desmanchando de barro, e que as suas plantinhas internas procuram sempre uma estufa na hora de se alimentar.Isso é comer Beto!
To precisando dar um nome pra isso que eu to sentindo Beto, é insuportável achar o belo arborizado.Não consigo respirar, como assim arborizado....e é! Me sufocando!

Dia desses eu tava trabalhando, e os olhares também,alguns olhos são passagens compradas na hora,enquanto outros são sem volta...aí um olhar me congelou, ardeu, foi fininho, entrou....Me dei conta.

-Beto , me rasgou, fiquei escancarada e pedi pra sair!
-você fugiu?
-não, eu fingi fugir.

Não vi outra saída , era o belo, eu acho que o procurei , achei..
Quando é beleza a vista, é rápido , nem tem febre , a gente só passa, a beleza passa.
Se congela e dói é porque é belo, aí não dá pra ir embora, não dá pra esquecer, não dá pra reduzir a lembrança.

-Marilia...e se vc voltasse atrás?
-Mas eu nem fui embora Beto, só morri um pouco depois daquele olhar.

Morri morrendo aos poucos, fiquei olhando pra trás até sumir....e não sumia.
Comecei a soluçar,e andar mais rápido até o final da vista, já que agora era menor o rasgo e o belo ja havia me perdido do olhar.

-Mas você disse beleza no começo Má,como você sabe que esse ímã vem do belo?
-O belo com reforços de beleza.
Uma amiga poetisa disse que o Rimbaud disse: "descobriram a eternidade , é o mar encontrando o céu!"
E é quase isso Beto!
-Deixa eu te levar pra almoçar vai, são onze horas .
-Nossa, só pensa em comer Beto, onze horas, cedo demais.
-Quer um pedaço de bolo então?
-De quê?
-Chama Belezinha!
-Não acredito
-Mas é, minha mãe disse que é receita de avô.Que na casa dela os homens faziam bolos mais voluptosos que as mulheres e davam nome.
- Eu quero!


E a beleza passa ....pelo vão dos lugares lotados.O belo fica, é demorado, insistente,forte,extremo ,condensado e sem volta.

-Beto e o nome da beleza , qual é?
-A beleza tem nome composto
-Mas fala
-o nome da beleza é "Avante Perigo"!

Se o belo tá dentro da gente, a beleza deve ficar fora.
Assim como o mar fica fora do céu e não se sabe qual dos dois é mais dentro ou mais lindo....
Beatriz

Afeto e saguão

O saguão tem esquinas
lotadas de chegadas

Os rostos afoitos não veêm as esquinas
vazam,patinam,vacilam....
são breves as suas idas e sinas

Olhando o saguão de cima
surgem também
encruzilhadas mais lentas

Pessoas, agora,
situam-se,
esperam-se
arrumam-se
cortejam sem pressa
de cima

até os derrapes são mais macios vistos de cima
Os desejos parecem ter calma
bocejam
A saudade até parece ter tempo
E o saguão de sempre
acolhe melhor os de sempre

Olhando o saguão na espera
me sujeito
a aguardar a hora do vento
e a pressa a passar

Quadrados dados
espiados de cima
adiantam-se ...
invadindo meus olhos

E um certo afeto
sem premissa
se concentra no saguão...

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

olhos de criança olhando o céu

Se o céu fosse uma visita de um dia
eu faria
Visitaria o céu
de véu mesmo se estivesse quente ,
ou se fosse ruim
mesmo assim contente

O céu seria por um dia meu e céu
só que eu não consiguiria dividir o céu
e choraria

Sozinha no céu
aí meu céu
que infelicidade

Não acredito em céu
Não acredito porque é alto demais
a gente cai quando a altura some nos olhos
e já me basta ser chorona
me dói os olhos o céu.

louça antiga ou amor em tempo de louça suja

SUFICIENTIZE-SE
SUFICIENTIZE-SE (era essa a voz)

É na louça suja que se mede o tamanho do limbo.É a sola gasta que entrega a semeadura.
Do sapato, a sola, da estória restos do caminho.
A estória te assola porque andaste em cima dela
A louça te mostra o limbo porque você espera.

Suficientize-se
Lave a louça, os olhos....
Por que será que te incomoda o cotucar de esmolas.Toda hora!
Esperneiam eles.... há um passo nos seus, dos seus, das tuas solas!
Deve ser algum desvio a esmola garoar o tempo todo, e o tempo tido nela a tal louça me lembrar.
Desvio das esmolas,desisto dos fiapos no canto da pia.
Na teia firme que se forma no oco do ralo, cheio de baba, desfio minhas cutículas ( só em lembrar).
Desdenho a pia e os pés dos mendigos!
Tenho nojo de louça jazida, de garfos azedos.....
Tenho medo que dos dentes vazem palavras gastonas, atrevidas e tenho medo que me peçam esmola.

Uma implicância derivada da louça começou a fazer rotina em mim, era como se tudo, ao invés de distrair-me da louça, apropriadamente resultasse na mesma sensação.
Antes mesmo de se parecer com a louça, as cenas realçavam de inicial observação, um abandono discreto...
Discreto sim!!!!!!

O florista todo dia tirava as flores do carro e as deixava no chão antes de montar a banqueta de sustentação...
FLORES NO CHÃO?
LOUÇA !!!!!!!!!!!!!
Aí num escapulir, nem quis ver .................mas vi a roupagem seguinte do homem, vestido para concretagem morde atenciosamente um "risólis" (praticamente uma bolsa térmica de óleo) ,às seis e meia da manhã!!!
O FÍGADO DELE?
LOUÇA !!!!!!!!!
Me pego sendo exagerada na implicância.Volto subo e lavo os olhos.
Desço novamente, sem blusa de manga agora,
MINHA TOSSE MAL -CURADA?!
LOUÇA!
Ignoro, sigo em frente com os braços arrepiados e olhos mais gentis.
Tem dia que amanhece antes da hora.....eu fico atrasada quando isso acontece
Esqueço o endereço que ia, esqueço de ariar o alumínio de dentro da pia.
Nas noites longas de riso meu esmalte disforme é novidade pra mim, nos dias feriados é como se minhas mãos não passassem de louça.
Faz sentido agora, não é implicância....mãos pequenas, desejos escapando das mãos....Construções desfeitas, abandonadas feito panelas engorduradas atravessam adiante.Ignoro.

Lembro da eternidade de certos encontros, mesmo os desmarcados
Da eternidade das impressões de amor.....não saem mais, não saem do lugar sentido.
Antes suspiro de surpresa, espera crua por motivos.Agora, ainda suspiro, igual ,e espera nua por mais suspiros.Só o que muda é a incontinência dos suspiros.....AAAAHhhhh..........eles escapam até da louça.
Passado vinte e cinco, trinta minutos ,volto a olhar as louças da rua, o homem-varredor, varre um monte e nunca passa pelo cantinho do limbo, só varre o que varreria mesmo.
Me irrita tanto quanto uma enxurrada de água limpa, é horrível ver tudo com olhos restantes, não serve em nada.
Meus olhos restam.....
Hoje amanheceu muito mais cedo que esperava e meu mundo pareceu apertado aos olhos.
Perdi uma unha, quis perder os olhos para o mundo.....Mas ainda são meus.

Beatriz Rodder